Eire, Guinness e o futebol de verdade
Posted: January 27th, 2010 | Author: Felipe Castro | Filed under: Cultura | Tags: beyond-england, guinness, irlanda, robbie keane, sunday bloody sunday | 5 Comments »Cork City realiza jogo pelas rodadas preliminares da UCL 06-07 contra os sérvios do Estrela Vermelha
A República da Irlanda é mundialmente conhecida pela Guinness, a famosa cerveja preta, pelo St. Patrick’s Day – quando se toma muita cerveja preta – o U2, o Oscar Wilde, o ex-007 Pierce Brosnan, o Colin Farrell, o IRA (Exército Republicano Irlandês), os famosos trevos de três folhas, além de Bob Geldof, George Bernard Shaw, Van Morrison e, claro, os leprechauns, duendes sapateiros do folclore irlandês. Mas e o futebol? A proximidade com a Inglaterra, terra-mãe do esporte, sugeriria que a galera do Eire (Irlanda em gaélico, a língua nativa de lá) gozasse também de prestígio dentro e fora dos seus domínios no ludopédio, não? É o que ocorre de certa forma com a Escócia, detentora de oito participações em Copas, sendo em 1974 a primeira seleção a cair invicta ainda na primeira fase; e até mesmo com a minúscula Irlanda do Norte, quadrifinalista em 1958 e 82, e que, entre 1964 e 77, viu atuar em sua seleção nacional um dos maiores atletas a nunca terem jogado um Mundial: George Best. No caso da nossa curiosa e boêmia República da Irlanda, porém, fica difícil qualquer diagnóstico. O país a oeste da Inglaterra participou pela primeira vez de uma Copa do Mundo somente em 1990 na Itália, com uma campanha surpreendente até as quartas-de-final, a primeira e melhor da história de Eire até agora. Portanto, foram décadas e décadas apenas contemplando as boas campanhas dos vizinhos em Copas, especialmente entre os anos 50 e 60, até o futebol irlandês aflorar de fato. Mas será que aflorou mesmo? Hoje, os entusiastas de St. Patrick vêem sua liga nacional esvaziada e seus melhores jogadores já atuando na Inglaterra desde muito jovens.
Resolvi pesquisar sobre o assunto quando notei uma lacuna no futebol da Irlanda. Ok, os boys in green levaram grandes públicos às Eliminatórias da Copa, só caíram pra França por causa de La Main de Dieu de Thierry e mostraram ao mundo vários bons ou ótimos jogadores como Liam Brady, John Aldridge, Roy e Robbie Keane, Nial Quinn e Damien Duff. Mas e a Liga Nacional, pensei. Será que realmente existe? Pesquisei a média de público do campeonato doméstico e o resultado foi surpreendente: além do futebol que conhecemos ser chamado de association football por lá, o maior estádio entre os clubes da League of Ireland Premier Division, acreditem, tem capacidade para apenas 8 mil espectadores, o Dalymount Park, do Bohemians de Dublin. Oito mil. É isso mesmo: o terceiro maior campeão do país tem um estádio com capacidade menor do que um de time de série A-3 do Campeonato Paulista. No Ítalo Mario Limongi, do simpático Primavera de Indaiatuba, cabe mais gente! Excetuando o famoso Croke Park, quarto maior estádio da Europa, palco de chacinas entre ingleses e irlandeses no começo do século XX e que não é de posse de nenhum clube de futebol, o maior estádio feito única e exclusivamente para a prática do nosso querido balípodo é o Tolka Park, para 9.680 espectadores, palco do Shelbourne, multicampeão irlandês que hoje está na segundona (League of Ireland First Division). A pesquisa foi difícil, faltam referências do assunto e até as confusões com os irlandeses do norte foram comuns. A federação dos conterrâneos de Bono Vox é a FAI (Football Association of Ireland) e não a IFA (Irish Football Association) que, apesar do “Irish”, é a federação equivalente para os norte-irlandeses. A League of Ireland tem apenas 10 times em sua Primeirona, a Premier Division, e mais 10 na First Division, a Série B dos greens.
Diante desse cenário fica fácil presumir que o futebol, o nosso futebol, está longe de ser a paixão número 1 dos compatriotas de Pierce Brosnan. O que move o torcedor, enche as canecas da galera de Guinness e lota todos os arquibancadas é, na verdade, o gaelic football. Praticado por pouquíssimos países no mundo e organizado pela Gaelic Athletic Associations, a GAA, o futebol gaélico, como define a própria associação organizadora, é uma mistura de futebol com rugbi, mas com algumas boas peculiaridades. Um goleiro, como estamos acostumados a ver, guarda a trave do football em forma de H impedindo que a bola, redonda e não oval, atinja a baliza de baixo, idêntica a do futebol, valendo 3 pontos; a parte de cima do H vale 1 ponto. Os jogadores são amadores e podem usar os pés para levar a bola adiante. Algumas posições táticas são parecidas com as do futebol daqui, como Full Back, Midfielder, Centre Forward. O jogo dura 60 minutos em dois tempos de 30, comandado por oito árbitros (!). O campo retangular e suas medidas convergem com as do hurling, uma espécie de hóquei, que pode ser definida como a paixão número 2 dos irlandeses. E o fato de muitos adeptos chamarem o gaelic football simplesmente de football, explica o porquê do mote da FAI, a Associação do nosso-futebol, ser Real Football, Real Fans (veja no site). Isso já resume toda a discussão, algo semelhante à dualidade do termo football entre Estados Unidos e resto do mundo.
Voltando à Liga dos camaradas beberrões do lado de cá do Mar da Irlanda, três times merecem destaque: a dupla arquirrival de Dublin, Shamrock Rovers e Bohemians, e o Cork City. Maior campeão nacional com 15 títulos e o time do coração de Colin Farrell, o nome Shamrock Rovers remete a seamróg, palavra em gaélico para o famoso trevo de três folhas, símbolo nacional. Seu uniforme é branco e as listras são horizontalmente verdes, idêntico ao dos Celtic Rangers, em uma tentativa, talvez, de emular o sucesso de um time não-inglês na região. Na realidade, o uniforme de ambos o times tem essa característica por causa do seámrog, o trevo, comum no emblema das duas equipes. Os Rovers já jogaram a Copa das Feiras (torneio entre campeões de Copas) algumas vezes nos anos 60 e inclusive bateram o Schalke 04 na temporada 69-70.
O Cork City é um time novo, de 1984, formado a partir de vários times menores da cidade. Cork é a segunda maior cidade da Irlanda, com mais de 200 mil habitantes, nada comparado aos mais de 1 milhão de cidadãos de Dublin, mas já teve diversos times na elite do futebol da terra dos leprechauns. Um deles foi o mitológico Cork Celtic, que um dia contou em seu plantel com algumas estrelas do futebol europeu. O alemão Uwe Seeler, o inglês Geoff Hurst – autor do hat-trick na final de 66 – e o supracitado George Best vestiram a camisa do Celtic. Todos eles atuaram por lá nos anos 70, entre 75 e 78, em não mais do que cinco, seis jogos cada. Essa equipe de Cork, como tantas outras, encerrou as atividades prematuramente, em 1979, apenas cinco anos depois de faturar seu único título da League of Ireland. O única representante da cidade hoje, portanto, é o City, campeão da Premier Division em 2005.

É curioso notar a origem de atletas que já serviram a seleção verde-e-laranja. Alguns, como o ex-Liverpool John Aldridge e o arremassador-de-laterais Rory Delap do Stoke City, nasceram no país de Shakespeare mas se naturalizaram irlandeses no meio da carreira. Outros, como Robbie Keane, Frank Stapleton, Nial Quinn e Denis Irwin chegaram muito cedo à Inglaterra, com menos de 18 anos, e mal jogaram nos times da terra do Oscar Wilde. Robbie Keane, hoje capitão dos boys in green, chegou em 1995 para servir o Wolverhampton. Ele tinha apenas 15 anos!
Diante de duas grandes potências diretamente concorrentes – o mercado do futebol inglês e as modalidades gaélicas – que atraem público e seduzem mão-de-obra, o futebol irlandês fica encurralado e, portanto, concentra suas forças em revelar talentos para fora. O extinto Home Farm F.C., por exemplo, desempenhava essa tarefa muito bem e foi um dos principais fornecedores de atletas para a Inglaterra, formando nomes como o lateral Ian Harte (ex- Leeds e futebol espanhol, atualmente no Carlisle United), o zagueiro Richard Dunne (Aston Villa, ex-Man City) e também aquele que é, segundo o escritor Nick Hornby em seu Febre de Bola, o último verdadeiro-armador do Arsenal Football Club: Liam Brady. Isso, claro, até a publicação do livro em 1992. Não vimos Hornby falando sobre Bergkamp, Vieira e o time campeão invicto de 2003-04, não é mesmo?
A League of Ireland, apesar de tudo, tem razoável prestígio junto a UEFA. Segundo a entidade máxima do esporte europeu, os irlandeses tem o 29ª melhor campeonato doméstico da Europa, a frente de ligas como a húngara e a finlandesa, mas atrás da bielorrussa, por exemplo.
A última boa notícia é de que o ótimo coeficiente de fair play dos times da Irlanda pode garantir ao país uma vaga a mais nas rodadas preliminares da UEFA Champions League. Seria uma boa para recolocar os irlandeses no mapa? Dê sua opinião.
Deitou no artigo heim Castrão?
Apesar de não ser a pessoa mais informada do mundo nesse ramo futebolístico, eu gostei. Gostei bastante mesmo. Parabéns. PS: Eu gostei do blog por ser simples e não ter muito inhe inhe inhe. Boa!
um time da IRLANDA, país conhecido por ser 100% formado por hooligans bêbados, ganhar uma vaga por FAIR PLAY é bizarro
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Gostei s2
Mas e a Irlanda do Norte, tem time? Racismo falar só do Eire… Vou chamar o IRA.
Te amo.